domingo, 28 de dezembro de 2008

canto de amigos

(barbara)

Descubro sozinha o espaço vazio deixado no ar e mergulho na cama atapetadp lençol para sonhar com a nuvem que não dissipa maus estares da guerra dentro do abrigo.
espero aqui que se desate a besta infestada de passados males, mas repousa cobarde aquietada no azul mentindo da festa os dizeres de outrora.

Esquecida repouso sem ousar mais espadas e num abraço a memória retoma meu sono de previsto cansaço para continuar a vida em cima dos passos que caminhos andados tornaram calosos, exaustos e poucos, e poder esquecer para recomeçar outra estrada de rosto erguido sem mágoas ou medos.

Juro sobre a minha alma que arquitectei outros dias para acabar a festa.
No meio do sonho entre promessas profundas mergulhei no mar da revoltada maré.

Mas agora é que era. A besta saía de olhos mansos para anunciar a guerra, e bramia as espadas, as facas e as cordas, vestindo de corça sua roupagem sem nexo.
E tão simplesmente, duma assentada, acabava com o sonho, acabava com a vida.

As lutas cessaram borradas de anil e o azul do céu ficou para sempre ecoando no tecto.
Agora fico à espera de relatos anunciados.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

canto de amigos

(machado da graça)

Vinha manso o escritor a falar outra vez dos desenhos. Tomei atenção desta vez e ouvi que tinha recolhido do chão do lixo uns desenhos que tinham deitado fora.
Eu acho que são teus dizia envergonhado.
Marcámos o dia visitei a casa, subi as escadas e logo ali, oito ou nove desenhos encaixilhados dos anos sessenta.
No sotão da escrita lá estava o pacote cuidadosamente embalado entre papeis e livros, lá onde os desenhos tinham morado, eles mesmo mais de trinta anos.
Sentei-me devagar e a medo comecei o desembrulho.
Uma a uma cada folha que saía tinha a minha história de vida, quarenta anos passados.
Na altura não queria acreditar, mas era verdade estavam ali, guardadinhos com amor, quase uma vida, à espera que os visse. Era verdade sim, e pela primeira vez as lágrimas desabridas traíram os olhos ao ver que alguém os recolhera e tinha tomado conta como se duma criança se tratasse.
Pela primeira vez senti-me obrigada a explicar um a um os temas escolhidos, eu propria a relembrar-me, o passado a reentrar, a descomplicar as memórias, a trazer à tona estórias apagadas da lembrança.

Era o confronto brutal com o passado doce e acreditado do país.
Da hora em que o sonho torna realidade o impulso de contar, de retratar.

Vinha manso o escritor e trazia consigo toda a minha adolescência, os meus confrontos, também as minhas lutas, os meus olhares.
Vinha tão manso o escritor e trazia nem ele nem eu sabíamos bem o quê e devagar dizia-me vai com calma tens todo o tempo que quiseres.
Ter o tempo nas mãos, poder utilizá-lo a meu prazer, saber que podia estar ali uma vida inteira a ver a rever, até podia morrer ali entre papeis e livros e flashes entrecortados da alma.
Podia.
Porque em áfrica o tempo é nosso. Inteiro.
Não há pressas nem horas. Só o sol melado e quente que nos lambe docemente a pele.

Mas ao mesmo tempo queria fugir, saltar daquele tumulto, desabituada agora de relógios parados.

Um a um assinei os desenhos.
E expliquei tudo o que se passava em redor deles.

O escritor que vinha manso e viu os meus confrontos quis devolver-me tudo.
Seria amoral receber aquela reliquia -guardada quase trinta anos - à espera que eu desse atenção.
Só trouxe o retrato da Teresinha e do Zé Netto a quem vou oferecer.
Fiquei com o registo fotocopiado de todas as obras e pedi ao manso escritor se me emprestava alguns para mostrar na exposição. Lá estiveram.

Só eu e ele sabíamos o desafio dos afectos.
Só eu e ele.
Foi por isto tudo que a minha adolescência ficou embrulhadinha naquele sotão.
Agora sei onde está.
Mansamente.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

canto de amigos

(mary)

Ela cortou uma fatia de pão. Obrigou-me a comer, como sempre.
Estava ali - a meus olhos cheios - a mesma.
Passados quarente anos era como se fosse ontem.
Os amigos é assim : cortam um braço se fôr preciso para nos oferecer a alma.
Estava igual.

Parecia outra vez que estávamos na varanda da casa à beira mar a ver os flamingos.
Parecia outra vez que estávamos a espreitar às escondidas os poemas dos miudos roubados à pressa da estante do quarto.
Olha este, dizia ela, tão bonito não é?
Não deixava ninguém falar, pois havia tanta coisa a pôr em dia!

Eu tinha era que comer.E mais pão e mais uma fatia de bolo.
Era o amor caído do céu como uma chuva de estrelas.
Como se o mundo fosse desabar, acabasse ali naquele momento.
Parecia outra vez que estávamos na varanda a ver os flamingos.
Sempre admirei esta mãe coragem cheia de braços a acolher os pintos e ainda com braços para os amigos.

Fiquei outra vez contigo nos olhos a ver os flamingos.
E não consigo sair desta imagem de amor.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

canto de amigos

Era necessária uma anamnese para que o diagnóstico tivesse o seu quê de intimidade e acreditasse que a esfera intima sofresse o estrago de se desnudar sem virtudes que ocultassem o medo da pequena descoberta.
Sem circunstância de prudência oculto em mim o que há de todos os todos que em mim houveram.
Tão pouco Aristóteles ou Freud em sua casa de campo exercitariam as regras para descompor o arcaico organizado desta fantasia.

O que eu sei de mim fui eu que me ensinou e nada há mais pesado que o reflexo do espelho estar atrás da imagem que gostaríamos de ver.

O que eu sei de mim fui eu que me ensinou e natural me sustento e divido quem dou por caminhos escolhidos de afectos clandestinos.
Ocultos presumo que mesma eu escondo a ferragem das portas do abrir e fechar para só entreabrir a beleza da sombra no umbral da janela à hora certa.

O que eu sei de mim fui eu que me ensinou no rancor da cópia que é o outro em nós sem mais contemplações, e se rio e disfarço é que já estou na peça a determinada etapa enquanto os outros ensaiam a voz do ensaio geral à espera do pano.
Como o Fernando filmou o murro certeiro que encheu de sangue o coração de Belarmino.

O que eu sei de mim fui eu que me ensinou a sedução do cruel elevado ao ponto do âmago vivido a viver o facto de facto para saber o outro primeiro que nós e descobri-lo dfepois duma forma clara que o principio do fim é o fim virado ao contrário avesso direito duma roupa já gasta que era do irmão mais velho.

rosto 2007

domingo, 23 de novembro de 2008

canto de amigos

De medo espartilhada encurto a alma e o desassossego assome`a garganta infelizes dias de tempo agreste ouriçado na esperança de meus males perdidos em bemfazer, acostumados por entre os panos.
Se lhe dissera do canto, a repartida esperança passaria ao revés,por enganosas palavras lá no fim da noite.
Fico-me na escrita, aparelho mudo que engole a alma sem resquícios ou pensares acolhidos à pressa.
Assim me descontinuo folha a folha de mareado papel, encontro de marcantes memórias,ruga a ruga ocupando o olhar.
Retorno apesar do cansaço de amargos risos e afloro chorando à canoa sentida destes versos.
É assim que desperto pela noite fora onde sonhos reais me rasgam a pele e o sangue escorre apressado e subtil dos olhos à boca circundando o corpo para acabar em poças por entre os pés.
Desperto chorando, não pelo sangue mas porque puxas repuxas os restos da pele em macerados dias desencontrados.
E nem sei se te diga que o alucinado sonho se instala magnifico no cansaço dobrado de afastar tuas mãos que em festas procuram apagar as marcas de acossadas feras habitadas por ti.
Porque da nossa extensão nem sempre sobram os amigos que cegas pensamos guardar para nós nos invisiveis gestos brutalizados no excesso.
E só sobra o cansaço, que aguarda nem sei, para apagar esses anos.

canto de amigos

(carlos cardoso)

Ponho uma pedra
em cima do teu corpo, Carlos
E a pedra envolta de sangue
escapa aos buracos da bala.
E a pedra é a tua alma, Carlos.

Quantas vezes terás de morrer
até se encontrar o rosto da bala?
(2000)

mural de homenagem a carlos cardoso

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

canto de amigos

(rui de noronha)

Juntaram-se os homens para falar do poeta,34 anos, desaparecido faz cinquenta, e que em tempos antigos escrevia crónicas dos nossos dias: rui de noronha.
Para dizer das coisas - 50 anos precisos - das coisas já feitas e caladas nos anos.
Já ditas, reditas, escritas para tudo acabar na homenagem discreta que só valeu quando os ecos soaram o quenguelequeze ampliado - como um grito sózinho - na sala quieta,pietá de amigos.

canto de amigos

(antónio cardoso)
Da voz do poeta urram dilaceradas as descobertas duma vida inteira atraiçoada por amigos e outros.Da boca humedecida pela cerveja quente espumam-se os dias de antónio cardoso. Entre portas e putas se descobrem razões duma paragem necessária feita balanço em armas como ultima esperança de calar a memória. Então o poeta tropeçado de angústias eleva o seu rosto e da moldura dourada que repousa na cabeceira de sua mãe, encosta a cabeça no diálogo morto e confronto a confronto admite-se o bicho duma floresta de medos.
Agora veio mesmo para tratar do corpo que sangra e defeca as memórias da guerra. Quem já viu morrer de porrada o amigo do lado, não esquece a palavra nem o abraço do corpo cansado do peso do morto abalado. Não esquece também que do frio da guerra o único alento ainda era esse corpo esboroado de vida que oferecia seus restos pelo sangue quente derramado em pedaços.
De história incestado debica-se em frases timidas e conta reconta caminhos passados do menino de bibe ao guerrilheiro acabado dos atalhos de luanda aos muceques da ilha, onde as viagens de rua são a unica esperança no passar do tempo deste poeta recluso duma esperança azul que se apagou no mapa. E foi-se.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

canto de amigos

(ana barradas)
O toque da escola ecoa no ar.Repentinamente regresso.E de bibe com flores, recordo anos fartos, aprendizagens puras.
Éramos pequenas e de laços e fitas,sete anos sentadas, folheávamos livros de ocultas imagens, no silêncio do barco. Ainda era o tempo do João de Deus.
Autorizações especiais deixavam meninas envoltas em livros, sentadas na escada trocando os olhares por cima das letras, páginas inteiras bordadas de imagens feitas à pena, com cavaleiros andantes e fadas crescidas, repletas de legendas explicando os voos para resumir a história do que era contado.
O avô posto em sossego levantava os olhos por de baixo dos óculos, cãs desciam-lhe em fios de prata sobrevoando o casaco de linho branco e controlava as meninas, que olhando de lado,sem articular palavras, mediam o tempo das permanências autorizadas.
Aí aprendi a gostar de livros, a saber folhear, olhar sentir a mágica do silêncio recôndito, gesto ocupado na sala redonda repleta de livros onde as vigias de barco traziam o sol cheio de luz na medida certa. Nunca mais por isso me soube sentar numa biblioteca. Faz-me falta o avô, porque eu e anita continuamos de mãos dadas.

domingo, 16 de novembro de 2008

sábado, 15 de novembro de 2008

terça-feira, 11 de novembro de 2008

canto de amigos

(glória de sant'anna)
Passado um mês recomeço a escrita sendo a glória de Glória que com "querida teresa?" me assome aos dias e desperta amores outrora encobertos de névoas ocultos para dizer quem sabe? estou aqui, quero saber, ouvir respostas.
Desta doce mãe escondida nos panos, que tão bem sabe ler entrelinhas poetas, mar azul, e ocasos de sol em cima de Pemba, ocultando em suas mágoas serenas, dias vestidos de cinza no pomar de Válega.
Aí é que me oiço e envergonho nas palavras.
E é desta mãe minha, tão minha maminha de mamar todo o leite entre filhos, que chega o bilhete curto e directo, aposto que escrito no cadeirão grande da sala que espera.
Porque ali vai estar sempre. Quieta, constante, os olhos pequenos manchados de mágoa, esperando que um dia o outro seja calmo.
Igual a si mesma, quieta e profunda escondendo no olhar as quinhentas mil estórias por contar.
Oh minha mãe de sempre. Meu amor de sentir nas veias o entendimento claro e feroz de dizer tátá aos dias, diz-me:
Em que pedaços de rimas liquidas se descobrem poemas?
Como é possivel essa visão de ver o alcance do pássaro que desleixado voa por cima das nuvens?
A quem transmitir este amor de ver a terra por de baixo dos passos, a fugir de nós, como se andasse furtiva por outras paragens?
São só cento e cinquenta quilómetros de rodados e tão longe de nós a saudade dos barcos...
Oh minha mãe de sempre nado em teus versos liquidos e precisos, recatadamente compostos em métrica pousada no mar.
Podia ser vulcão de ilha, jacaré ou tubarão este ímpeto dum abraço que até ao sangue me levasse ao limite do que não quero mas tanto sinto.
E depois dizer-te pequena mãe encafoada no sofá que cedo possa estou aí para te falar da furia dos meus medos.
E contigo beberei chá, invariavel me agarrarei a teus braços fortes para falar contigo duma pátria só nossa: a terra sonhada da igualdade dos homens.
Oh minha mãe de sempre, de cada vez que te vejo tenho mais saudades tuas.

sábado, 8 de novembro de 2008

canto de amigos

(Al Berto)

Sem ternura ocupada abraço sozinha todo o medo de Al Berto acossada que estou
paralelo de mim em latitudes nuas.

(maria rosa colaço)

Entro no astro, meu mecânico carro e voo odisseia e a chuva de estrelas cai-me nos braços, firmamento isolado dum amigo mais antigo.

Tu hoje não estás bem. Tu hoje não estás bem.

O rosto do amigo conhece-me a cara, revejo imagens antigas, abano as mãos para dizer assim assim, e o coração colado em todos os vidros recomeça a bater os desenhos da esperança na memória verdinha e espevitada que ameaça os dias.
Só a maria rosa desenhava no arroz doce a insistência do amor para o comer às colheres.
Sentada no campo ficou a vontade de adiar o passado.
Tantas coisas bonitas dá raiva de ver de repente sem espera.
Acabo já isto e não ouço as palavras acabarem a frase - que triste que estás -
Sorrio mentiras para abafar o choro que o lobo vivaço grudou na garganta
habitando latidos à espera de partir.
Do que fizeram de mim
braços pregados e olhos para baixo a esconder a emoção
agarro a flor e a hortelã que repousam na campa alheias a tudo.
Solto a pomba para voar contigo.
Entro no carro e atravesso a estrada.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

canto de amigos

(josé craveirinha)

Se Zeca fôra, trazia outro amigo também deixando para quem apetecia
comer tudo sem deixar nada. "os meninos vão nascendo anda ver o mar"
Noticias implicitas, cegas guerras de baionetas aflitas, fome à fartura
triturando amanhãs de gente pura.

Ninguém sabe, ninguém quer saber e o povo, esse, só quer comer, esperados cansaços
de só ver morrer morrer morrer.

Já não quero saber de nada, nada, nada

recolho os saberes, os tons, as aguadas e fechando os olhos no silêncio descrito
dum pássaro no céu, arremesso ao voo a linha dos olhos - indiferente visão - de estar mesmo ao lado.

Agora a guerra transcende os países e ocultos negócios encobrem sangues
trocando missangas por balas precisas, colonizando as rotas em bazucas brancas
para temperos flamantes de metralhadoras picantes.
Se lusa ou lusófona se apregoa a brisa qual vento esquecido de primogénitos filhos,
alcançamos o degrau após sol exausto para ouvir camus num elevador fechado.

Chegou o poeta, traz lágrimas nos olhos duma corrida breve a conta alucinado metro sobre metro as passadas certeiras de sua irmã Mutola.
É José intimista que regressa cansado das coisas da guerra e se sente roubado na esperança e nos medos que fizeram desaparecer o sonho " a três metros e meio das cadeiras da praça"

Agora é fartar aguardar e esperar e falar português enquanto o yes não ocupar o baibai do tátá africano.

Mas outras estórias dependuram-se do tecto como morcegos cegos.
De repente José regressa ao passado que com rolhas se fizeram bigodes em zézito e horácio para subir as escadas do velho casino costa da rua araujo.
E ali os meninos, de catorze anos contados, espreitavam as damas com seus senhores, roleta nas mãos indecentes jogando jogando e que sem tempo sobrado nunca tocavam os decotes abertos das fervorosas damas aguardando ansiosas, onde só dois meninos viajavam escondidos à espreita e à espera do sonho do amor.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

canto de amigos

(diana andringa)

Permaneço museu na contígua peça, recordando catálogos, especiais efeitos, abraçadas linhas de teu rosto parado.
Em lençol dobrado anicho meus males e deito esquecida dos mares quentes a rota do desejo inconfessando palavras.

Odisseia cantante este canto de amigos, retratos puros, chapas sem senso de dias comuns, devolvo do coração as permanências breves de atravessados caminhos campestres.
Que isto de escrever sem ver pelos espelhos, autentica razões e consumos foge aos olhos do curioso bravio e subtrai da paisagem a mata sem flores.

Atento no estudo da continuidade para seguir o verso a palavra e o verbo, e só me disperso quando nus os sentidos descobrem acções, transcrevem segredos surprendendo motivos de obscuros medos - cobras, lagartos e ratazanas fartas.

Vem outro dia e relido o texto fica àquem da ternura o gesto contido de ir além do descontinuado sono na bruma neblosa de não parar o mais forte pensamento -
adaga afiada zumbindo cortes retalhos de musica pairando no ar.
"Não há machado que corte a raiz ao pensamento..."

E agradeço à Diana a lição dos factos.

canto de amigos

(joão)

Aparecem de novo mas são outros nos panos, por de baixo da pele e entre os dias.
De quinas partidas se ajeita João ao redondo dos dias. Seu olhar distingue o repouso breve da palavra calada.
Mas é no deserto imenso que chameia de gritos o desejo contido de devolver volumes em abraços não dados.
Outrora gestos eram de quem os queria e sobravam na tarde os arremessos distantes de paralelos sentidos.
Ocupo na máquina o passar dos dias e na parede revejo os reflexos da rua.

Relembro joão com seu sorriso largo que me abraçou no fax com um universo novo
acreditando que a força é o mais forte dos homens
e só o sol o deslumbra na cidade do gelo.

De vergonha calo a promessa da carta pois não sei que dizer da verdade guardada que insiste em mentir sobre a fábula do mosquito:

Quem com ferro mata com ferro morre.

E com picada?

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

canto de amigos

tátá antónio
Decóro palavras aqui recorte a recorte e saio da quinta marejado rosto
inconsolável medo, perdido medonho de acenar o gesto.
Amar os amigos é amar-nos a nós solitários vazios repletos de aranhas num espaço sem moscas. Regresso ao sul à procura do gesto do adeus breve e ao entrar em casa um estranho sabor paira no ar.
Fecho-me no quarto e das quatro paredes só as ervas cheirosas de rosmaninho urze e alfazema abraçam a ternura do meu sono precisado.
Assim me chego aos abraços despojada de todos aguardando a passagem para o dia novo.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

canto de amigos

Encontro em sossego os dias de prata. A casa está vazia do medo de outrora.

Subita entras pela janela através do retrato.

Vem do sol sol este desejo de saber a lágrima não compreendendo o traçado do que imaginei real.
Subterfugio de meus dedos lambo no sonho o novelo das nuvens
e esguia elevo o gesto à menor parte de mim.

Pedra a pedra esfacelado rosto fico no desassossego da alma em ferozes dias.
Nada empresto ao redor. Muda permaneço quieta sem traçar o gesto.

Cabe-me aqui contemplar Luiz Vaz
- deportado poeta em minha ilha coeso entre missangas jacarandás e indianas ervas de gosto -
a tentar saber por onde o soneto parou para que das indias obtusas os panos cobrissem
o rosto azul do gentio muçulmano, onde buzios e mares já navegados e conhecidos
deram origem às tormentas caravelas quietas de esperança no Ìndico canal das descobertas.

Depois de ver Grabato Dias perdido em besteiros de alta côrte
aqui jazo com Luiz Vaz entre alecrins manjeronas e incestos,
como sopa de todas as ervas programadas com embustes e achares do sul,
uma rodada de água do poço e fatias de melão acabadas de cortar.

De tudo isto guardo a noite que não dormi e o dossier dum projecto a acabar:
a reconstrução plena das pedras brancas, o forte, o fortim, e a fortaleza dos dias que antónio teima em insistir em belas coisas nunca vistas.
Depois já sem lágrimas, me enregaça em suas veias finas labor e luta que só seus dias sabem
no trajecto tortuoso dos anos que teimosamente aparecem cheios de luz.

Ficam por aí os amigos perdidos em foices claras.
Ele de fala aberta, boca sincera aos mudos, os surdos afasta de sua vida ao saber a verdade dos dias claros.
Nesta odisseia campestre entre aulas alunos riscos e traços
entrelinham-se marquesas e traças sem horas extraordinárias a lamber o ensinado.
E assim ficam em projecto os mais novos gestos dum programa enevoado.
António João grabata quadros, sobe paredes, organiza tectos, pinhos doces em solários vazios
para besteiros de campo em santiago do norte.

Trajectos outros em atalhos de agora.
Querem saber?
Sem horas

domingo, 19 de outubro de 2008

textos avulsos

Contar historias, falar de nós, afinal que medo de cometer incorreções, tropeçar nos vocábulos, inventar palavras, ora imaginação, como dizia Einstein - Em momentos de crise só a imaginação é mais importante!
Mas falar é bom. Ouvir os pontos das quedas não é coisa que me excite. Posso parecer fora do mundo ( e às vezes até quero estar) mas interessam-me mais os valores dos sentimentos, o bafejar das almas, o triturar dos dentes. Saber que aquela mulher em coma há cinco anos, sossega e olha para mim quando lhe faço uma festa.
Saber que depois do vento vem a acalmia. E rir com coisas simples como a de ontem. A noticia ecoou no éter: duas filhas dedicadas e amorosas, depois da mãe morta, pintaram-lhe as unhas, baton na boca, usaram rouje francês na cara, um vestido às flores - como disse a outra - e como não bastasse, ainda lhe enfiaram um chapéu na cabeça.
Devia parecer a Lola Flores de Almodovar!
Quem não gostou e comentou, foram as caipiras que acompanharam a cadáver gaiteira até à cova. Credo menina, parecia um filme! Que irá Nosso Senhor dizer? Como se atreveram?
De vez em quando a gente ri. Também faz bem e dá para desopilar as merdas que se atravessam no caminho. Mas a melhor estória, é que a vitima em vida, aos domingos, vestia-se a rigor e em vez de dar grandes passeios na marginal, enfiava-se no carro estacionado à porta de casa, e com seu ditoso esposo ouviam a radio renascença em altos berros. Sim, para que se soubesse que além do carro, também tinham musica. Aquilo é que era!
Nem a banda dos bombeiros lhes fazia frente!
Lá foi ontem - mas ficou para a história. Essa é que é essa!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

textos avulsos

Lá fui ontem dizer adeus ao Tinho.
Era o maluquito da aldeia.
Em dias incertos atravessava a rua, entrava no campo, despia as calças e depositava as suas necessidades.
Tinha a pila do tamanho bum burro, mas não fazia mal a ninguém.
A imagem de marca era pôr-se em sentido a fazer a continência a quem passava.
Depois mandava seguir pessoas ou carros, tipo sinaleiro.
Houve quem o chamasse de general.
Foi a primeira vez que o vi de gravata.
A igreja estava cheia, mas eu era a unica da cidade que tinha lá ido.
Até foi engraçado ver as pessoas a cumprimentarem-me para se sentirem mais importantes.
Cumprimentavam-me e olhavam para os outros, como quem diz eu cá conheço-a.
Depois foi a missa.
Na aldeia as pessoas não são muito católicas. Aliás a nossa aldeia não tem igreja - que é coisa rara em Portugal.
Ninguém conseguia acompanhar o padre, mas faziam a ladainha aproximada para não parecer mal.
Olhavam para mim que também não sabia acompanhar.
Quando foi o pai nosso a igreja parecia que vinha abaixo.
O padre até mandou falar mais baixo.
E lá encomendou o Tinho com ecos de amens e obrigados à mistura.
Vai fazer-me falta o Tinho.
Devia haver sempre um maluquito na nossa vida.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

textos avulsos

Invariavelmente ela entrava-me pela porta de casa para me falar das percas. Eu já não a podia ver à frente, e às vezes era mesmo agressiva e perguntava: então e as percas?
Cá vamos, dizia ela em dias mais frouxos. Mas punha sempre aquele ar de sofrimento de quem perdeu a familia duma só vez.
Eu irritava-me e ao principio respondia. Depois com o tempo, comecei a pôr o rosto em alvo a olhar para o céu e pensava noutras coisas para me defender. Ela bem que podia falar. Já não a ouvia. Nunca tive jeito de ser ou ouvir os coitadinhos. Irritam-me!

A minha vida tinha sido uma maravilha no passado mas nunca consegui corrigir nada de modo a revirá-la.
Os factos vão acontecendo, vamos sendo apanhados nas armadilhas e assim se fica enredado, polvilhado, como numa teia.
Nada a fazer, vê lá tu, depois de tantos anos aqui, agora vou viver para a cidade.
O meu marido é um chato, não sai de casa, e eu filha, quero é apanhar ar, ver coisas, estar com o meu neto. Ir à ginástica já não me cansa.
Eu que pensava que as pessoas iam à ginástica para endurecer o corpo e os musculos, fiquei surpreendida com esta maxima do cansaço!

Vou a correr ao café comprar pão e o jornal. Folheio, vejo, releio, mas pouco me interessa.

Lembro-me da minha irmã mais velha que dizia és uma burra só lês histórias aos quadradinhos. Vais ficar burra toda a vida. Outra maxima da sabedoria!
Nós éramos muito diferentes e ainda hoje.
Lutei sempre pelo espaço, pelo campo, pela liberdade, pela terra, pelas arvores.
Ela pela cidade, pelo ruido, por tudo a mexer, a apitar, a convulsão dos gazes, as buzinadelas, os barulhos das circulares, os centros comerciais - o verdadeiro auge do barulho! que eu detesto.
Às sete da manhã o meu cão lambe-me as mãos para lhe abrir a porta da rua - um nojo dirá ela - a seguir vem a gata a querer festas - que porcaria tantos animais! Imagina se eu tinha a minha vida condicionada pos esta porcaria dos bichos!
Ficamos assim.
Caladas mas a respirar.

textos avulsos

Linda casa! E o jardim tão bonito! dizia a visita anteontem.
Para que não pensasse que tudo caía do céu, fui adiantando que dava muito trabalho, arrancar ervas, plantar coisas, podar árvores, sim porque as pessoas da cidade pensam que as coisas no campo são assim de nascença, aparecem feitas!
E isto para não falar das minhocas nem das lesmas e caracóis que comem tudo, principalmente as primeiras folhas, as mais tenrinhas, olha os caracóis são como os pedófilos - nem deixam crescer.
Aí a visita parou. Olhou para cima, fez uma cara seria, e abanou a cabeça com ar de consentimento. Só por falar em pedófilos é que me deu atenção.
Depois começou logo a falar de politica. Que este era assim, aqueloutro assado e os outros fritos.
Uma merda de conversa. Cada uma para seu lado.
As pessoas duma maneira geral não ouvem o que os outros dizem. Prestam pouca atenção.
Vem a passar a carrinha do pão. Buzina desenfreada a altos berros para vender as suas carcaças.
Amanhã vão fazer 5 graus de temperatura, diz a radio.
Como dois croquetes e bebo um copo de água.
Já é altura de pensar mais fundo- era a mulher do supermercado. Não sei se se referia à vida, a si propria ou aos ultimos acontecimentos. As pessoas do campo querem tornar-se citadinas e despejam coisas da boca para fora. Muitas vezes nem percebo o alcance. Mas como não a conhecia não perguntei nada. Só olhei para ela. Foi o bastante. Ofereceu-me um sorriso largo como se o entendimento lhe aquecesse a alma. Ficámos assim. Depois disse: hoje vou comprar um frango e sentar-me à frente da tv para ver a bola.

domingo, 5 de outubro de 2008

cá estou

cá estou eu a desenhar escrevendo.
porque a palavra não é mais do que um acto de desenho.
por isso desenho e pinto letra a letra o meu corpo e a minha alma.
ao longo dos anos tem sido assim.
rascunhar rascunhar e depois num assomo desasombrado deitar para fora, vomitar as articulações engolir a espaços os designios.
retomar os sangues, pulpitar os suores, abraçar os nadas.
para quê não sei. só este desejo de me sentir viva e comunicar.
sem mais nada.
nem adereços nem foguetes nem invernos ou sóis hostis.
estar e pronto.
ir passando pelos dias.