(diana andringa)
Permaneço museu na contígua peça, recordando catálogos, especiais efeitos, abraçadas linhas de teu rosto parado.
Em lençol dobrado anicho meus males e deito esquecida dos mares quentes a rota do desejo inconfessando palavras.
Odisseia cantante este canto de amigos, retratos puros, chapas sem senso de dias comuns, devolvo do coração as permanências breves de atravessados caminhos campestres.
Que isto de escrever sem ver pelos espelhos, autentica razões e consumos foge aos olhos do curioso bravio e subtrai da paisagem a mata sem flores.
Atento no estudo da continuidade para seguir o verso a palavra e o verbo, e só me disperso quando nus os sentidos descobrem acções, transcrevem segredos surprendendo motivos de obscuros medos - cobras, lagartos e ratazanas fartas.
Vem outro dia e relido o texto fica àquem da ternura o gesto contido de ir além do descontinuado sono na bruma neblosa de não parar o mais forte pensamento -
adaga afiada zumbindo cortes retalhos de musica pairando no ar.
"Não há machado que corte a raiz ao pensamento..."
E agradeço à Diana a lição dos factos.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
canto de amigos
(joão)
Aparecem de novo mas são outros nos panos, por de baixo da pele e entre os dias.
De quinas partidas se ajeita João ao redondo dos dias. Seu olhar distingue o repouso breve da palavra calada.
Mas é no deserto imenso que chameia de gritos o desejo contido de devolver volumes em abraços não dados.
Outrora gestos eram de quem os queria e sobravam na tarde os arremessos distantes de paralelos sentidos.
Ocupo na máquina o passar dos dias e na parede revejo os reflexos da rua.
Relembro joão com seu sorriso largo que me abraçou no fax com um universo novo
acreditando que a força é o mais forte dos homens
e só o sol o deslumbra na cidade do gelo.
De vergonha calo a promessa da carta pois não sei que dizer da verdade guardada que insiste em mentir sobre a fábula do mosquito:
Quem com ferro mata com ferro morre.
E com picada?
Aparecem de novo mas são outros nos panos, por de baixo da pele e entre os dias.
De quinas partidas se ajeita João ao redondo dos dias. Seu olhar distingue o repouso breve da palavra calada.
Mas é no deserto imenso que chameia de gritos o desejo contido de devolver volumes em abraços não dados.
Outrora gestos eram de quem os queria e sobravam na tarde os arremessos distantes de paralelos sentidos.
Ocupo na máquina o passar dos dias e na parede revejo os reflexos da rua.
Relembro joão com seu sorriso largo que me abraçou no fax com um universo novo
acreditando que a força é o mais forte dos homens
e só o sol o deslumbra na cidade do gelo.
De vergonha calo a promessa da carta pois não sei que dizer da verdade guardada que insiste em mentir sobre a fábula do mosquito:
Quem com ferro mata com ferro morre.
E com picada?
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
canto de amigos
tátá antónio
Decóro palavras aqui recorte a recorte e saio da quinta marejado rosto
inconsolável medo, perdido medonho de acenar o gesto.
Amar os amigos é amar-nos a nós solitários vazios repletos de aranhas num espaço sem moscas. Regresso ao sul à procura do gesto do adeus breve e ao entrar em casa um estranho sabor paira no ar.
Fecho-me no quarto e das quatro paredes só as ervas cheirosas de rosmaninho urze e alfazema abraçam a ternura do meu sono precisado.
Assim me chego aos abraços despojada de todos aguardando a passagem para o dia novo.
Decóro palavras aqui recorte a recorte e saio da quinta marejado rosto
inconsolável medo, perdido medonho de acenar o gesto.
Amar os amigos é amar-nos a nós solitários vazios repletos de aranhas num espaço sem moscas. Regresso ao sul à procura do gesto do adeus breve e ao entrar em casa um estranho sabor paira no ar.
Fecho-me no quarto e das quatro paredes só as ervas cheirosas de rosmaninho urze e alfazema abraçam a ternura do meu sono precisado.
Assim me chego aos abraços despojada de todos aguardando a passagem para o dia novo.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
canto de amigos
Encontro em sossego os dias de prata. A casa está vazia do medo de outrora.
Subita entras pela janela através do retrato.
Vem do sol sol este desejo de saber a lágrima não compreendendo o traçado do que imaginei real.
Subterfugio de meus dedos lambo no sonho o novelo das nuvens
e esguia elevo o gesto à menor parte de mim.
Pedra a pedra esfacelado rosto fico no desassossego da alma em ferozes dias.
Nada empresto ao redor. Muda permaneço quieta sem traçar o gesto.
Cabe-me aqui contemplar Luiz Vaz
- deportado poeta em minha ilha coeso entre missangas jacarandás e indianas ervas de gosto -
a tentar saber por onde o soneto parou para que das indias obtusas os panos cobrissem
o rosto azul do gentio muçulmano, onde buzios e mares já navegados e conhecidos
deram origem às tormentas caravelas quietas de esperança no Ìndico canal das descobertas.
Depois de ver Grabato Dias perdido em besteiros de alta côrte
aqui jazo com Luiz Vaz entre alecrins manjeronas e incestos,
como sopa de todas as ervas programadas com embustes e achares do sul,
uma rodada de água do poço e fatias de melão acabadas de cortar.
De tudo isto guardo a noite que não dormi e o dossier dum projecto a acabar:
a reconstrução plena das pedras brancas, o forte, o fortim, e a fortaleza dos dias que antónio teima em insistir em belas coisas nunca vistas.
Depois já sem lágrimas, me enregaça em suas veias finas labor e luta que só seus dias sabem
no trajecto tortuoso dos anos que teimosamente aparecem cheios de luz.
Ficam por aí os amigos perdidos em foices claras.
Ele de fala aberta, boca sincera aos mudos, os surdos afasta de sua vida ao saber a verdade dos dias claros.
Nesta odisseia campestre entre aulas alunos riscos e traços
entrelinham-se marquesas e traças sem horas extraordinárias a lamber o ensinado.
E assim ficam em projecto os mais novos gestos dum programa enevoado.
António João grabata quadros, sobe paredes, organiza tectos, pinhos doces em solários vazios
para besteiros de campo em santiago do norte.
Trajectos outros em atalhos de agora.
Querem saber?
Sem horas
Subita entras pela janela através do retrato.
Vem do sol sol este desejo de saber a lágrima não compreendendo o traçado do que imaginei real.
Subterfugio de meus dedos lambo no sonho o novelo das nuvens
e esguia elevo o gesto à menor parte de mim.
Pedra a pedra esfacelado rosto fico no desassossego da alma em ferozes dias.
Nada empresto ao redor. Muda permaneço quieta sem traçar o gesto.
Cabe-me aqui contemplar Luiz Vaz
- deportado poeta em minha ilha coeso entre missangas jacarandás e indianas ervas de gosto -
a tentar saber por onde o soneto parou para que das indias obtusas os panos cobrissem
o rosto azul do gentio muçulmano, onde buzios e mares já navegados e conhecidos
deram origem às tormentas caravelas quietas de esperança no Ìndico canal das descobertas.
Depois de ver Grabato Dias perdido em besteiros de alta côrte
aqui jazo com Luiz Vaz entre alecrins manjeronas e incestos,
como sopa de todas as ervas programadas com embustes e achares do sul,
uma rodada de água do poço e fatias de melão acabadas de cortar.
De tudo isto guardo a noite que não dormi e o dossier dum projecto a acabar:
a reconstrução plena das pedras brancas, o forte, o fortim, e a fortaleza dos dias que antónio teima em insistir em belas coisas nunca vistas.
Depois já sem lágrimas, me enregaça em suas veias finas labor e luta que só seus dias sabem
no trajecto tortuoso dos anos que teimosamente aparecem cheios de luz.
Ficam por aí os amigos perdidos em foices claras.
Ele de fala aberta, boca sincera aos mudos, os surdos afasta de sua vida ao saber a verdade dos dias claros.
Nesta odisseia campestre entre aulas alunos riscos e traços
entrelinham-se marquesas e traças sem horas extraordinárias a lamber o ensinado.
E assim ficam em projecto os mais novos gestos dum programa enevoado.
António João grabata quadros, sobe paredes, organiza tectos, pinhos doces em solários vazios
para besteiros de campo em santiago do norte.
Trajectos outros em atalhos de agora.
Querem saber?
Sem horas
domingo, 19 de outubro de 2008
textos avulsos
Contar historias, falar de nós, afinal que medo de cometer incorreções, tropeçar nos vocábulos, inventar palavras, ora imaginação, como dizia Einstein - Em momentos de crise só a imaginação é mais importante!
Mas falar é bom. Ouvir os pontos das quedas não é coisa que me excite. Posso parecer fora do mundo ( e às vezes até quero estar) mas interessam-me mais os valores dos sentimentos, o bafejar das almas, o triturar dos dentes. Saber que aquela mulher em coma há cinco anos, sossega e olha para mim quando lhe faço uma festa.
Saber que depois do vento vem a acalmia. E rir com coisas simples como a de ontem. A noticia ecoou no éter: duas filhas dedicadas e amorosas, depois da mãe morta, pintaram-lhe as unhas, baton na boca, usaram rouje francês na cara, um vestido às flores - como disse a outra - e como não bastasse, ainda lhe enfiaram um chapéu na cabeça.
Devia parecer a Lola Flores de Almodovar!
Quem não gostou e comentou, foram as caipiras que acompanharam a cadáver gaiteira até à cova. Credo menina, parecia um filme! Que irá Nosso Senhor dizer? Como se atreveram?
De vez em quando a gente ri. Também faz bem e dá para desopilar as merdas que se atravessam no caminho. Mas a melhor estória, é que a vitima em vida, aos domingos, vestia-se a rigor e em vez de dar grandes passeios na marginal, enfiava-se no carro estacionado à porta de casa, e com seu ditoso esposo ouviam a radio renascença em altos berros. Sim, para que se soubesse que além do carro, também tinham musica. Aquilo é que era!
Nem a banda dos bombeiros lhes fazia frente!
Lá foi ontem - mas ficou para a história. Essa é que é essa!
Mas falar é bom. Ouvir os pontos das quedas não é coisa que me excite. Posso parecer fora do mundo ( e às vezes até quero estar) mas interessam-me mais os valores dos sentimentos, o bafejar das almas, o triturar dos dentes. Saber que aquela mulher em coma há cinco anos, sossega e olha para mim quando lhe faço uma festa.
Saber que depois do vento vem a acalmia. E rir com coisas simples como a de ontem. A noticia ecoou no éter: duas filhas dedicadas e amorosas, depois da mãe morta, pintaram-lhe as unhas, baton na boca, usaram rouje francês na cara, um vestido às flores - como disse a outra - e como não bastasse, ainda lhe enfiaram um chapéu na cabeça.
Devia parecer a Lola Flores de Almodovar!
Quem não gostou e comentou, foram as caipiras que acompanharam a cadáver gaiteira até à cova. Credo menina, parecia um filme! Que irá Nosso Senhor dizer? Como se atreveram?
De vez em quando a gente ri. Também faz bem e dá para desopilar as merdas que se atravessam no caminho. Mas a melhor estória, é que a vitima em vida, aos domingos, vestia-se a rigor e em vez de dar grandes passeios na marginal, enfiava-se no carro estacionado à porta de casa, e com seu ditoso esposo ouviam a radio renascença em altos berros. Sim, para que se soubesse que além do carro, também tinham musica. Aquilo é que era!
Nem a banda dos bombeiros lhes fazia frente!
Lá foi ontem - mas ficou para a história. Essa é que é essa!
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
textos avulsos
Lá fui ontem dizer adeus ao Tinho.
Era o maluquito da aldeia.
Em dias incertos atravessava a rua, entrava no campo, despia as calças e depositava as suas necessidades.
Tinha a pila do tamanho bum burro, mas não fazia mal a ninguém.
A imagem de marca era pôr-se em sentido a fazer a continência a quem passava.
Depois mandava seguir pessoas ou carros, tipo sinaleiro.
Houve quem o chamasse de general.
Foi a primeira vez que o vi de gravata.
A igreja estava cheia, mas eu era a unica da cidade que tinha lá ido.
Até foi engraçado ver as pessoas a cumprimentarem-me para se sentirem mais importantes.
Cumprimentavam-me e olhavam para os outros, como quem diz eu cá conheço-a.
Depois foi a missa.
Na aldeia as pessoas não são muito católicas. Aliás a nossa aldeia não tem igreja - que é coisa rara em Portugal.
Ninguém conseguia acompanhar o padre, mas faziam a ladainha aproximada para não parecer mal.
Olhavam para mim que também não sabia acompanhar.
Quando foi o pai nosso a igreja parecia que vinha abaixo.
O padre até mandou falar mais baixo.
E lá encomendou o Tinho com ecos de amens e obrigados à mistura.
Vai fazer-me falta o Tinho.
Devia haver sempre um maluquito na nossa vida.
Era o maluquito da aldeia.
Em dias incertos atravessava a rua, entrava no campo, despia as calças e depositava as suas necessidades.
Tinha a pila do tamanho bum burro, mas não fazia mal a ninguém.
A imagem de marca era pôr-se em sentido a fazer a continência a quem passava.
Depois mandava seguir pessoas ou carros, tipo sinaleiro.
Houve quem o chamasse de general.
Foi a primeira vez que o vi de gravata.
A igreja estava cheia, mas eu era a unica da cidade que tinha lá ido.
Até foi engraçado ver as pessoas a cumprimentarem-me para se sentirem mais importantes.
Cumprimentavam-me e olhavam para os outros, como quem diz eu cá conheço-a.
Depois foi a missa.
Na aldeia as pessoas não são muito católicas. Aliás a nossa aldeia não tem igreja - que é coisa rara em Portugal.
Ninguém conseguia acompanhar o padre, mas faziam a ladainha aproximada para não parecer mal.
Olhavam para mim que também não sabia acompanhar.
Quando foi o pai nosso a igreja parecia que vinha abaixo.
O padre até mandou falar mais baixo.
E lá encomendou o Tinho com ecos de amens e obrigados à mistura.
Vai fazer-me falta o Tinho.
Devia haver sempre um maluquito na nossa vida.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
textos avulsos
Invariavelmente ela entrava-me pela porta de casa para me falar das percas. Eu já não a podia ver à frente, e às vezes era mesmo agressiva e perguntava: então e as percas?
Cá vamos, dizia ela em dias mais frouxos. Mas punha sempre aquele ar de sofrimento de quem perdeu a familia duma só vez.
Eu irritava-me e ao principio respondia. Depois com o tempo, comecei a pôr o rosto em alvo a olhar para o céu e pensava noutras coisas para me defender. Ela bem que podia falar. Já não a ouvia. Nunca tive jeito de ser ou ouvir os coitadinhos. Irritam-me!
A minha vida tinha sido uma maravilha no passado mas nunca consegui corrigir nada de modo a revirá-la.
Os factos vão acontecendo, vamos sendo apanhados nas armadilhas e assim se fica enredado, polvilhado, como numa teia.
Nada a fazer, vê lá tu, depois de tantos anos aqui, agora vou viver para a cidade.
O meu marido é um chato, não sai de casa, e eu filha, quero é apanhar ar, ver coisas, estar com o meu neto. Ir à ginástica já não me cansa.
Eu que pensava que as pessoas iam à ginástica para endurecer o corpo e os musculos, fiquei surpreendida com esta maxima do cansaço!
Vou a correr ao café comprar pão e o jornal. Folheio, vejo, releio, mas pouco me interessa.
Lembro-me da minha irmã mais velha que dizia és uma burra só lês histórias aos quadradinhos. Vais ficar burra toda a vida. Outra maxima da sabedoria!
Nós éramos muito diferentes e ainda hoje.
Lutei sempre pelo espaço, pelo campo, pela liberdade, pela terra, pelas arvores.
Ela pela cidade, pelo ruido, por tudo a mexer, a apitar, a convulsão dos gazes, as buzinadelas, os barulhos das circulares, os centros comerciais - o verdadeiro auge do barulho! que eu detesto.
Às sete da manhã o meu cão lambe-me as mãos para lhe abrir a porta da rua - um nojo dirá ela - a seguir vem a gata a querer festas - que porcaria tantos animais! Imagina se eu tinha a minha vida condicionada pos esta porcaria dos bichos!
Ficamos assim.
Caladas mas a respirar.
Cá vamos, dizia ela em dias mais frouxos. Mas punha sempre aquele ar de sofrimento de quem perdeu a familia duma só vez.
Eu irritava-me e ao principio respondia. Depois com o tempo, comecei a pôr o rosto em alvo a olhar para o céu e pensava noutras coisas para me defender. Ela bem que podia falar. Já não a ouvia. Nunca tive jeito de ser ou ouvir os coitadinhos. Irritam-me!
A minha vida tinha sido uma maravilha no passado mas nunca consegui corrigir nada de modo a revirá-la.
Os factos vão acontecendo, vamos sendo apanhados nas armadilhas e assim se fica enredado, polvilhado, como numa teia.
Nada a fazer, vê lá tu, depois de tantos anos aqui, agora vou viver para a cidade.
O meu marido é um chato, não sai de casa, e eu filha, quero é apanhar ar, ver coisas, estar com o meu neto. Ir à ginástica já não me cansa.
Eu que pensava que as pessoas iam à ginástica para endurecer o corpo e os musculos, fiquei surpreendida com esta maxima do cansaço!
Vou a correr ao café comprar pão e o jornal. Folheio, vejo, releio, mas pouco me interessa.
Lembro-me da minha irmã mais velha que dizia és uma burra só lês histórias aos quadradinhos. Vais ficar burra toda a vida. Outra maxima da sabedoria!
Nós éramos muito diferentes e ainda hoje.
Lutei sempre pelo espaço, pelo campo, pela liberdade, pela terra, pelas arvores.
Ela pela cidade, pelo ruido, por tudo a mexer, a apitar, a convulsão dos gazes, as buzinadelas, os barulhos das circulares, os centros comerciais - o verdadeiro auge do barulho! que eu detesto.
Às sete da manhã o meu cão lambe-me as mãos para lhe abrir a porta da rua - um nojo dirá ela - a seguir vem a gata a querer festas - que porcaria tantos animais! Imagina se eu tinha a minha vida condicionada pos esta porcaria dos bichos!
Ficamos assim.
Caladas mas a respirar.
textos avulsos
Linda casa! E o jardim tão bonito! dizia a visita anteontem.
Para que não pensasse que tudo caía do céu, fui adiantando que dava muito trabalho, arrancar ervas, plantar coisas, podar árvores, sim porque as pessoas da cidade pensam que as coisas no campo são assim de nascença, aparecem feitas!
E isto para não falar das minhocas nem das lesmas e caracóis que comem tudo, principalmente as primeiras folhas, as mais tenrinhas, olha os caracóis são como os pedófilos - nem deixam crescer.
Aí a visita parou. Olhou para cima, fez uma cara seria, e abanou a cabeça com ar de consentimento. Só por falar em pedófilos é que me deu atenção.
Depois começou logo a falar de politica. Que este era assim, aqueloutro assado e os outros fritos.
Uma merda de conversa. Cada uma para seu lado.
As pessoas duma maneira geral não ouvem o que os outros dizem. Prestam pouca atenção.
Vem a passar a carrinha do pão. Buzina desenfreada a altos berros para vender as suas carcaças.
Amanhã vão fazer 5 graus de temperatura, diz a radio.
Como dois croquetes e bebo um copo de água.
Já é altura de pensar mais fundo- era a mulher do supermercado. Não sei se se referia à vida, a si propria ou aos ultimos acontecimentos. As pessoas do campo querem tornar-se citadinas e despejam coisas da boca para fora. Muitas vezes nem percebo o alcance. Mas como não a conhecia não perguntei nada. Só olhei para ela. Foi o bastante. Ofereceu-me um sorriso largo como se o entendimento lhe aquecesse a alma. Ficámos assim. Depois disse: hoje vou comprar um frango e sentar-me à frente da tv para ver a bola.
Para que não pensasse que tudo caía do céu, fui adiantando que dava muito trabalho, arrancar ervas, plantar coisas, podar árvores, sim porque as pessoas da cidade pensam que as coisas no campo são assim de nascença, aparecem feitas!
E isto para não falar das minhocas nem das lesmas e caracóis que comem tudo, principalmente as primeiras folhas, as mais tenrinhas, olha os caracóis são como os pedófilos - nem deixam crescer.
Aí a visita parou. Olhou para cima, fez uma cara seria, e abanou a cabeça com ar de consentimento. Só por falar em pedófilos é que me deu atenção.
Depois começou logo a falar de politica. Que este era assim, aqueloutro assado e os outros fritos.
Uma merda de conversa. Cada uma para seu lado.
As pessoas duma maneira geral não ouvem o que os outros dizem. Prestam pouca atenção.
Vem a passar a carrinha do pão. Buzina desenfreada a altos berros para vender as suas carcaças.
Amanhã vão fazer 5 graus de temperatura, diz a radio.
Como dois croquetes e bebo um copo de água.
Já é altura de pensar mais fundo- era a mulher do supermercado. Não sei se se referia à vida, a si propria ou aos ultimos acontecimentos. As pessoas do campo querem tornar-se citadinas e despejam coisas da boca para fora. Muitas vezes nem percebo o alcance. Mas como não a conhecia não perguntei nada. Só olhei para ela. Foi o bastante. Ofereceu-me um sorriso largo como se o entendimento lhe aquecesse a alma. Ficámos assim. Depois disse: hoje vou comprar um frango e sentar-me à frente da tv para ver a bola.
domingo, 5 de outubro de 2008
cá estou
cá estou eu a desenhar escrevendo.
porque a palavra não é mais do que um acto de desenho.
por isso desenho e pinto letra a letra o meu corpo e a minha alma.
ao longo dos anos tem sido assim.
rascunhar rascunhar e depois num assomo desasombrado deitar para fora, vomitar as articulações engolir a espaços os designios.
retomar os sangues, pulpitar os suores, abraçar os nadas.
para quê não sei. só este desejo de me sentir viva e comunicar.
sem mais nada.
nem adereços nem foguetes nem invernos ou sóis hostis.
estar e pronto.
ir passando pelos dias.
porque a palavra não é mais do que um acto de desenho.
por isso desenho e pinto letra a letra o meu corpo e a minha alma.
ao longo dos anos tem sido assim.
rascunhar rascunhar e depois num assomo desasombrado deitar para fora, vomitar as articulações engolir a espaços os designios.
retomar os sangues, pulpitar os suores, abraçar os nadas.
para quê não sei. só este desejo de me sentir viva e comunicar.
sem mais nada.
nem adereços nem foguetes nem invernos ou sóis hostis.
estar e pronto.
ir passando pelos dias.
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