Linda casa! E o jardim tão bonito! dizia a visita anteontem.
Para que não pensasse que tudo caía do céu, fui adiantando que dava muito trabalho, arrancar ervas, plantar coisas, podar árvores, sim porque as pessoas da cidade pensam que as coisas no campo são assim de nascença, aparecem feitas!
E isto para não falar das minhocas nem das lesmas e caracóis que comem tudo, principalmente as primeiras folhas, as mais tenrinhas, olha os caracóis são como os pedófilos - nem deixam crescer.
Aí a visita parou. Olhou para cima, fez uma cara seria, e abanou a cabeça com ar de consentimento. Só por falar em pedófilos é que me deu atenção.
Depois começou logo a falar de politica. Que este era assim, aqueloutro assado e os outros fritos.
Uma merda de conversa. Cada uma para seu lado.
As pessoas duma maneira geral não ouvem o que os outros dizem. Prestam pouca atenção.
Vem a passar a carrinha do pão. Buzina desenfreada a altos berros para vender as suas carcaças.
Amanhã vão fazer 5 graus de temperatura, diz a radio.
Como dois croquetes e bebo um copo de água.
Já é altura de pensar mais fundo- era a mulher do supermercado. Não sei se se referia à vida, a si propria ou aos ultimos acontecimentos. As pessoas do campo querem tornar-se citadinas e despejam coisas da boca para fora. Muitas vezes nem percebo o alcance. Mas como não a conhecia não perguntei nada. Só olhei para ela. Foi o bastante. Ofereceu-me um sorriso largo como se o entendimento lhe aquecesse a alma. Ficámos assim. Depois disse: hoje vou comprar um frango e sentar-me à frente da tv para ver a bola.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
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1 comentários:
Gostei. A vida tal como se apresenta a olhares que vão da generalidade ao acento de particularidades muito pessoais. Desenhar escrevendo com os esboços a fazer lastro às palavras e o desfile de gente que também conheci/conheço. Citações a definir um horizonte de verdades, fantasias e afectos. O outro lado do tempo que se gasta a polir as horas e os outros em pano de fundo para dar nome aos momentos. Hei-de voltar.
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