Invariavelmente ela entrava-me pela porta de casa para me falar das percas. Eu já não a podia ver à frente, e às vezes era mesmo agressiva e perguntava: então e as percas?
Cá vamos, dizia ela em dias mais frouxos. Mas punha sempre aquele ar de sofrimento de quem perdeu a familia duma só vez.
Eu irritava-me e ao principio respondia. Depois com o tempo, comecei a pôr o rosto em alvo a olhar para o céu e pensava noutras coisas para me defender. Ela bem que podia falar. Já não a ouvia. Nunca tive jeito de ser ou ouvir os coitadinhos. Irritam-me!
A minha vida tinha sido uma maravilha no passado mas nunca consegui corrigir nada de modo a revirá-la.
Os factos vão acontecendo, vamos sendo apanhados nas armadilhas e assim se fica enredado, polvilhado, como numa teia.
Nada a fazer, vê lá tu, depois de tantos anos aqui, agora vou viver para a cidade.
O meu marido é um chato, não sai de casa, e eu filha, quero é apanhar ar, ver coisas, estar com o meu neto. Ir à ginástica já não me cansa.
Eu que pensava que as pessoas iam à ginástica para endurecer o corpo e os musculos, fiquei surpreendida com esta maxima do cansaço!
Vou a correr ao café comprar pão e o jornal. Folheio, vejo, releio, mas pouco me interessa.
Lembro-me da minha irmã mais velha que dizia és uma burra só lês histórias aos quadradinhos. Vais ficar burra toda a vida. Outra maxima da sabedoria!
Nós éramos muito diferentes e ainda hoje.
Lutei sempre pelo espaço, pelo campo, pela liberdade, pela terra, pelas arvores.
Ela pela cidade, pelo ruido, por tudo a mexer, a apitar, a convulsão dos gazes, as buzinadelas, os barulhos das circulares, os centros comerciais - o verdadeiro auge do barulho! que eu detesto.
Às sete da manhã o meu cão lambe-me as mãos para lhe abrir a porta da rua - um nojo dirá ela - a seguir vem a gata a querer festas - que porcaria tantos animais! Imagina se eu tinha a minha vida condicionada pos esta porcaria dos bichos!
Ficamos assim.
Caladas mas a respirar.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
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2 comentários:
Consegui e feliz, rindo, respiro também.
Xis,
Inez
Eu conheci a Tereza numa altura menos tranquila da sua curta vida. Era uma adolescente complicada e que eu, que tinha deixado de o ser havia pouco tempo, pensei que a saberia ajudar. Ela era magérrima, dizia-me que iria morrer cedo, "porque os gordos morriam do coração e os magros de câncro". Futuramente posso referir outras peripécias. Bj. Maria Alice
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