domingo, 23 de novembro de 2008

canto de amigos

De medo espartilhada encurto a alma e o desassossego assome`a garganta infelizes dias de tempo agreste ouriçado na esperança de meus males perdidos em bemfazer, acostumados por entre os panos.
Se lhe dissera do canto, a repartida esperança passaria ao revés,por enganosas palavras lá no fim da noite.
Fico-me na escrita, aparelho mudo que engole a alma sem resquícios ou pensares acolhidos à pressa.
Assim me descontinuo folha a folha de mareado papel, encontro de marcantes memórias,ruga a ruga ocupando o olhar.
Retorno apesar do cansaço de amargos risos e afloro chorando à canoa sentida destes versos.
É assim que desperto pela noite fora onde sonhos reais me rasgam a pele e o sangue escorre apressado e subtil dos olhos à boca circundando o corpo para acabar em poças por entre os pés.
Desperto chorando, não pelo sangue mas porque puxas repuxas os restos da pele em macerados dias desencontrados.
E nem sei se te diga que o alucinado sonho se instala magnifico no cansaço dobrado de afastar tuas mãos que em festas procuram apagar as marcas de acossadas feras habitadas por ti.
Porque da nossa extensão nem sempre sobram os amigos que cegas pensamos guardar para nós nos invisiveis gestos brutalizados no excesso.
E só sobra o cansaço, que aguarda nem sei, para apagar esses anos.

canto de amigos

(carlos cardoso)

Ponho uma pedra
em cima do teu corpo, Carlos
E a pedra envolta de sangue
escapa aos buracos da bala.
E a pedra é a tua alma, Carlos.

Quantas vezes terás de morrer
até se encontrar o rosto da bala?
(2000)

mural de homenagem a carlos cardoso

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

canto de amigos

(rui de noronha)

Juntaram-se os homens para falar do poeta,34 anos, desaparecido faz cinquenta, e que em tempos antigos escrevia crónicas dos nossos dias: rui de noronha.
Para dizer das coisas - 50 anos precisos - das coisas já feitas e caladas nos anos.
Já ditas, reditas, escritas para tudo acabar na homenagem discreta que só valeu quando os ecos soaram o quenguelequeze ampliado - como um grito sózinho - na sala quieta,pietá de amigos.

canto de amigos

(antónio cardoso)
Da voz do poeta urram dilaceradas as descobertas duma vida inteira atraiçoada por amigos e outros.Da boca humedecida pela cerveja quente espumam-se os dias de antónio cardoso. Entre portas e putas se descobrem razões duma paragem necessária feita balanço em armas como ultima esperança de calar a memória. Então o poeta tropeçado de angústias eleva o seu rosto e da moldura dourada que repousa na cabeceira de sua mãe, encosta a cabeça no diálogo morto e confronto a confronto admite-se o bicho duma floresta de medos.
Agora veio mesmo para tratar do corpo que sangra e defeca as memórias da guerra. Quem já viu morrer de porrada o amigo do lado, não esquece a palavra nem o abraço do corpo cansado do peso do morto abalado. Não esquece também que do frio da guerra o único alento ainda era esse corpo esboroado de vida que oferecia seus restos pelo sangue quente derramado em pedaços.
De história incestado debica-se em frases timidas e conta reconta caminhos passados do menino de bibe ao guerrilheiro acabado dos atalhos de luanda aos muceques da ilha, onde as viagens de rua são a unica esperança no passar do tempo deste poeta recluso duma esperança azul que se apagou no mapa. E foi-se.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

canto de amigos

(ana barradas)
O toque da escola ecoa no ar.Repentinamente regresso.E de bibe com flores, recordo anos fartos, aprendizagens puras.
Éramos pequenas e de laços e fitas,sete anos sentadas, folheávamos livros de ocultas imagens, no silêncio do barco. Ainda era o tempo do João de Deus.
Autorizações especiais deixavam meninas envoltas em livros, sentadas na escada trocando os olhares por cima das letras, páginas inteiras bordadas de imagens feitas à pena, com cavaleiros andantes e fadas crescidas, repletas de legendas explicando os voos para resumir a história do que era contado.
O avô posto em sossego levantava os olhos por de baixo dos óculos, cãs desciam-lhe em fios de prata sobrevoando o casaco de linho branco e controlava as meninas, que olhando de lado,sem articular palavras, mediam o tempo das permanências autorizadas.
Aí aprendi a gostar de livros, a saber folhear, olhar sentir a mágica do silêncio recôndito, gesto ocupado na sala redonda repleta de livros onde as vigias de barco traziam o sol cheio de luz na medida certa. Nunca mais por isso me soube sentar numa biblioteca. Faz-me falta o avô, porque eu e anita continuamos de mãos dadas.

domingo, 16 de novembro de 2008

sábado, 15 de novembro de 2008

terça-feira, 11 de novembro de 2008

canto de amigos

(glória de sant'anna)
Passado um mês recomeço a escrita sendo a glória de Glória que com "querida teresa?" me assome aos dias e desperta amores outrora encobertos de névoas ocultos para dizer quem sabe? estou aqui, quero saber, ouvir respostas.
Desta doce mãe escondida nos panos, que tão bem sabe ler entrelinhas poetas, mar azul, e ocasos de sol em cima de Pemba, ocultando em suas mágoas serenas, dias vestidos de cinza no pomar de Válega.
Aí é que me oiço e envergonho nas palavras.
E é desta mãe minha, tão minha maminha de mamar todo o leite entre filhos, que chega o bilhete curto e directo, aposto que escrito no cadeirão grande da sala que espera.
Porque ali vai estar sempre. Quieta, constante, os olhos pequenos manchados de mágoa, esperando que um dia o outro seja calmo.
Igual a si mesma, quieta e profunda escondendo no olhar as quinhentas mil estórias por contar.
Oh minha mãe de sempre. Meu amor de sentir nas veias o entendimento claro e feroz de dizer tátá aos dias, diz-me:
Em que pedaços de rimas liquidas se descobrem poemas?
Como é possivel essa visão de ver o alcance do pássaro que desleixado voa por cima das nuvens?
A quem transmitir este amor de ver a terra por de baixo dos passos, a fugir de nós, como se andasse furtiva por outras paragens?
São só cento e cinquenta quilómetros de rodados e tão longe de nós a saudade dos barcos...
Oh minha mãe de sempre nado em teus versos liquidos e precisos, recatadamente compostos em métrica pousada no mar.
Podia ser vulcão de ilha, jacaré ou tubarão este ímpeto dum abraço que até ao sangue me levasse ao limite do que não quero mas tanto sinto.
E depois dizer-te pequena mãe encafoada no sofá que cedo possa estou aí para te falar da furia dos meus medos.
E contigo beberei chá, invariavel me agarrarei a teus braços fortes para falar contigo duma pátria só nossa: a terra sonhada da igualdade dos homens.
Oh minha mãe de sempre, de cada vez que te vejo tenho mais saudades tuas.

sábado, 8 de novembro de 2008

canto de amigos

(Al Berto)

Sem ternura ocupada abraço sozinha todo o medo de Al Berto acossada que estou
paralelo de mim em latitudes nuas.

(maria rosa colaço)

Entro no astro, meu mecânico carro e voo odisseia e a chuva de estrelas cai-me nos braços, firmamento isolado dum amigo mais antigo.

Tu hoje não estás bem. Tu hoje não estás bem.

O rosto do amigo conhece-me a cara, revejo imagens antigas, abano as mãos para dizer assim assim, e o coração colado em todos os vidros recomeça a bater os desenhos da esperança na memória verdinha e espevitada que ameaça os dias.
Só a maria rosa desenhava no arroz doce a insistência do amor para o comer às colheres.
Sentada no campo ficou a vontade de adiar o passado.
Tantas coisas bonitas dá raiva de ver de repente sem espera.
Acabo já isto e não ouço as palavras acabarem a frase - que triste que estás -
Sorrio mentiras para abafar o choro que o lobo vivaço grudou na garganta
habitando latidos à espera de partir.
Do que fizeram de mim
braços pregados e olhos para baixo a esconder a emoção
agarro a flor e a hortelã que repousam na campa alheias a tudo.
Solto a pomba para voar contigo.
Entro no carro e atravesso a estrada.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

canto de amigos

(josé craveirinha)

Se Zeca fôra, trazia outro amigo também deixando para quem apetecia
comer tudo sem deixar nada. "os meninos vão nascendo anda ver o mar"
Noticias implicitas, cegas guerras de baionetas aflitas, fome à fartura
triturando amanhãs de gente pura.

Ninguém sabe, ninguém quer saber e o povo, esse, só quer comer, esperados cansaços
de só ver morrer morrer morrer.

Já não quero saber de nada, nada, nada

recolho os saberes, os tons, as aguadas e fechando os olhos no silêncio descrito
dum pássaro no céu, arremesso ao voo a linha dos olhos - indiferente visão - de estar mesmo ao lado.

Agora a guerra transcende os países e ocultos negócios encobrem sangues
trocando missangas por balas precisas, colonizando as rotas em bazucas brancas
para temperos flamantes de metralhadoras picantes.
Se lusa ou lusófona se apregoa a brisa qual vento esquecido de primogénitos filhos,
alcançamos o degrau após sol exausto para ouvir camus num elevador fechado.

Chegou o poeta, traz lágrimas nos olhos duma corrida breve a conta alucinado metro sobre metro as passadas certeiras de sua irmã Mutola.
É José intimista que regressa cansado das coisas da guerra e se sente roubado na esperança e nos medos que fizeram desaparecer o sonho " a três metros e meio das cadeiras da praça"

Agora é fartar aguardar e esperar e falar português enquanto o yes não ocupar o baibai do tátá africano.

Mas outras estórias dependuram-se do tecto como morcegos cegos.
De repente José regressa ao passado que com rolhas se fizeram bigodes em zézito e horácio para subir as escadas do velho casino costa da rua araujo.
E ali os meninos, de catorze anos contados, espreitavam as damas com seus senhores, roleta nas mãos indecentes jogando jogando e que sem tempo sobrado nunca tocavam os decotes abertos das fervorosas damas aguardando ansiosas, onde só dois meninos viajavam escondidos à espreita e à espera do sonho do amor.