segunda-feira, 17 de novembro de 2008

canto de amigos

(ana barradas)
O toque da escola ecoa no ar.Repentinamente regresso.E de bibe com flores, recordo anos fartos, aprendizagens puras.
Éramos pequenas e de laços e fitas,sete anos sentadas, folheávamos livros de ocultas imagens, no silêncio do barco. Ainda era o tempo do João de Deus.
Autorizações especiais deixavam meninas envoltas em livros, sentadas na escada trocando os olhares por cima das letras, páginas inteiras bordadas de imagens feitas à pena, com cavaleiros andantes e fadas crescidas, repletas de legendas explicando os voos para resumir a história do que era contado.
O avô posto em sossego levantava os olhos por de baixo dos óculos, cãs desciam-lhe em fios de prata sobrevoando o casaco de linho branco e controlava as meninas, que olhando de lado,sem articular palavras, mediam o tempo das permanências autorizadas.
Aí aprendi a gostar de livros, a saber folhear, olhar sentir a mágica do silêncio recôndito, gesto ocupado na sala redonda repleta de livros onde as vigias de barco traziam o sol cheio de luz na medida certa. Nunca mais por isso me soube sentar numa biblioteca. Faz-me falta o avô, porque eu e anita continuamos de mãos dadas.

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