quarta-feira, 19 de novembro de 2008

canto de amigos

(antónio cardoso)
Da voz do poeta urram dilaceradas as descobertas duma vida inteira atraiçoada por amigos e outros.Da boca humedecida pela cerveja quente espumam-se os dias de antónio cardoso. Entre portas e putas se descobrem razões duma paragem necessária feita balanço em armas como ultima esperança de calar a memória. Então o poeta tropeçado de angústias eleva o seu rosto e da moldura dourada que repousa na cabeceira de sua mãe, encosta a cabeça no diálogo morto e confronto a confronto admite-se o bicho duma floresta de medos.
Agora veio mesmo para tratar do corpo que sangra e defeca as memórias da guerra. Quem já viu morrer de porrada o amigo do lado, não esquece a palavra nem o abraço do corpo cansado do peso do morto abalado. Não esquece também que do frio da guerra o único alento ainda era esse corpo esboroado de vida que oferecia seus restos pelo sangue quente derramado em pedaços.
De história incestado debica-se em frases timidas e conta reconta caminhos passados do menino de bibe ao guerrilheiro acabado dos atalhos de luanda aos muceques da ilha, onde as viagens de rua são a unica esperança no passar do tempo deste poeta recluso duma esperança azul que se apagou no mapa. E foi-se.

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