(barbara)
Descubro sozinha o espaço vazio deixado no ar e mergulho na cama atapetadp lençol para sonhar com a nuvem que não dissipa maus estares da guerra dentro do abrigo.
espero aqui que se desate a besta infestada de passados males, mas repousa cobarde aquietada no azul mentindo da festa os dizeres de outrora.
Esquecida repouso sem ousar mais espadas e num abraço a memória retoma meu sono de previsto cansaço para continuar a vida em cima dos passos que caminhos andados tornaram calosos, exaustos e poucos, e poder esquecer para recomeçar outra estrada de rosto erguido sem mágoas ou medos.
Juro sobre a minha alma que arquitectei outros dias para acabar a festa.
No meio do sonho entre promessas profundas mergulhei no mar da revoltada maré.
Mas agora é que era. A besta saía de olhos mansos para anunciar a guerra, e bramia as espadas, as facas e as cordas, vestindo de corça sua roupagem sem nexo.
E tão simplesmente, duma assentada, acabava com o sonho, acabava com a vida.
As lutas cessaram borradas de anil e o azul do céu ficou para sempre ecoando no tecto.
Agora fico à espera de relatos anunciados.
domingo, 28 de dezembro de 2008
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
canto de amigos
(machado da graça)
Vinha manso o escritor a falar outra vez dos desenhos. Tomei atenção desta vez e ouvi que tinha recolhido do chão do lixo uns desenhos que tinham deitado fora.
Eu acho que são teus dizia envergonhado.
Marcámos o dia visitei a casa, subi as escadas e logo ali, oito ou nove desenhos encaixilhados dos anos sessenta.
No sotão da escrita lá estava o pacote cuidadosamente embalado entre papeis e livros, lá onde os desenhos tinham morado, eles mesmo mais de trinta anos.
Sentei-me devagar e a medo comecei o desembrulho.
Uma a uma cada folha que saía tinha a minha história de vida, quarenta anos passados.
Na altura não queria acreditar, mas era verdade estavam ali, guardadinhos com amor, quase uma vida, à espera que os visse. Era verdade sim, e pela primeira vez as lágrimas desabridas traíram os olhos ao ver que alguém os recolhera e tinha tomado conta como se duma criança se tratasse.
Pela primeira vez senti-me obrigada a explicar um a um os temas escolhidos, eu propria a relembrar-me, o passado a reentrar, a descomplicar as memórias, a trazer à tona estórias apagadas da lembrança.
Era o confronto brutal com o passado doce e acreditado do país.
Da hora em que o sonho torna realidade o impulso de contar, de retratar.
Vinha manso o escritor e trazia consigo toda a minha adolescência, os meus confrontos, também as minhas lutas, os meus olhares.
Vinha tão manso o escritor e trazia nem ele nem eu sabíamos bem o quê e devagar dizia-me vai com calma tens todo o tempo que quiseres.
Ter o tempo nas mãos, poder utilizá-lo a meu prazer, saber que podia estar ali uma vida inteira a ver a rever, até podia morrer ali entre papeis e livros e flashes entrecortados da alma.
Podia.
Porque em áfrica o tempo é nosso. Inteiro.
Não há pressas nem horas. Só o sol melado e quente que nos lambe docemente a pele.
Mas ao mesmo tempo queria fugir, saltar daquele tumulto, desabituada agora de relógios parados.
Um a um assinei os desenhos.
E expliquei tudo o que se passava em redor deles.
O escritor que vinha manso e viu os meus confrontos quis devolver-me tudo.
Seria amoral receber aquela reliquia -guardada quase trinta anos - à espera que eu desse atenção.
Só trouxe o retrato da Teresinha e do Zé Netto a quem vou oferecer.
Fiquei com o registo fotocopiado de todas as obras e pedi ao manso escritor se me emprestava alguns para mostrar na exposição. Lá estiveram.
Só eu e ele sabíamos o desafio dos afectos.
Só eu e ele.
Foi por isto tudo que a minha adolescência ficou embrulhadinha naquele sotão.
Agora sei onde está.
Mansamente.
Vinha manso o escritor a falar outra vez dos desenhos. Tomei atenção desta vez e ouvi que tinha recolhido do chão do lixo uns desenhos que tinham deitado fora.
Eu acho que são teus dizia envergonhado.
Marcámos o dia visitei a casa, subi as escadas e logo ali, oito ou nove desenhos encaixilhados dos anos sessenta.
No sotão da escrita lá estava o pacote cuidadosamente embalado entre papeis e livros, lá onde os desenhos tinham morado, eles mesmo mais de trinta anos.
Sentei-me devagar e a medo comecei o desembrulho.
Uma a uma cada folha que saía tinha a minha história de vida, quarenta anos passados.
Na altura não queria acreditar, mas era verdade estavam ali, guardadinhos com amor, quase uma vida, à espera que os visse. Era verdade sim, e pela primeira vez as lágrimas desabridas traíram os olhos ao ver que alguém os recolhera e tinha tomado conta como se duma criança se tratasse.
Pela primeira vez senti-me obrigada a explicar um a um os temas escolhidos, eu propria a relembrar-me, o passado a reentrar, a descomplicar as memórias, a trazer à tona estórias apagadas da lembrança.
Era o confronto brutal com o passado doce e acreditado do país.
Da hora em que o sonho torna realidade o impulso de contar, de retratar.
Vinha manso o escritor e trazia consigo toda a minha adolescência, os meus confrontos, também as minhas lutas, os meus olhares.
Vinha tão manso o escritor e trazia nem ele nem eu sabíamos bem o quê e devagar dizia-me vai com calma tens todo o tempo que quiseres.
Ter o tempo nas mãos, poder utilizá-lo a meu prazer, saber que podia estar ali uma vida inteira a ver a rever, até podia morrer ali entre papeis e livros e flashes entrecortados da alma.
Podia.
Porque em áfrica o tempo é nosso. Inteiro.
Não há pressas nem horas. Só o sol melado e quente que nos lambe docemente a pele.
Mas ao mesmo tempo queria fugir, saltar daquele tumulto, desabituada agora de relógios parados.
Um a um assinei os desenhos.
E expliquei tudo o que se passava em redor deles.
O escritor que vinha manso e viu os meus confrontos quis devolver-me tudo.
Seria amoral receber aquela reliquia -guardada quase trinta anos - à espera que eu desse atenção.
Só trouxe o retrato da Teresinha e do Zé Netto a quem vou oferecer.
Fiquei com o registo fotocopiado de todas as obras e pedi ao manso escritor se me emprestava alguns para mostrar na exposição. Lá estiveram.
Só eu e ele sabíamos o desafio dos afectos.
Só eu e ele.
Foi por isto tudo que a minha adolescência ficou embrulhadinha naquele sotão.
Agora sei onde está.
Mansamente.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
canto de amigos
(mary)
Ela cortou uma fatia de pão. Obrigou-me a comer, como sempre.
Estava ali - a meus olhos cheios - a mesma.
Passados quarente anos era como se fosse ontem.
Os amigos é assim : cortam um braço se fôr preciso para nos oferecer a alma.
Estava igual.
Parecia outra vez que estávamos na varanda da casa à beira mar a ver os flamingos.
Parecia outra vez que estávamos a espreitar às escondidas os poemas dos miudos roubados à pressa da estante do quarto.
Olha este, dizia ela, tão bonito não é?
Não deixava ninguém falar, pois havia tanta coisa a pôr em dia!
Eu tinha era que comer.E mais pão e mais uma fatia de bolo.
Era o amor caído do céu como uma chuva de estrelas.
Como se o mundo fosse desabar, acabasse ali naquele momento.
Parecia outra vez que estávamos na varanda a ver os flamingos.
Sempre admirei esta mãe coragem cheia de braços a acolher os pintos e ainda com braços para os amigos.
Fiquei outra vez contigo nos olhos a ver os flamingos.
E não consigo sair desta imagem de amor.
Ela cortou uma fatia de pão. Obrigou-me a comer, como sempre.
Estava ali - a meus olhos cheios - a mesma.
Passados quarente anos era como se fosse ontem.
Os amigos é assim : cortam um braço se fôr preciso para nos oferecer a alma.
Estava igual.
Parecia outra vez que estávamos na varanda da casa à beira mar a ver os flamingos.
Parecia outra vez que estávamos a espreitar às escondidas os poemas dos miudos roubados à pressa da estante do quarto.
Olha este, dizia ela, tão bonito não é?
Não deixava ninguém falar, pois havia tanta coisa a pôr em dia!
Eu tinha era que comer.E mais pão e mais uma fatia de bolo.
Era o amor caído do céu como uma chuva de estrelas.
Como se o mundo fosse desabar, acabasse ali naquele momento.
Parecia outra vez que estávamos na varanda a ver os flamingos.
Sempre admirei esta mãe coragem cheia de braços a acolher os pintos e ainda com braços para os amigos.
Fiquei outra vez contigo nos olhos a ver os flamingos.
E não consigo sair desta imagem de amor.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
canto de amigos
Era necessária uma anamnese para que o diagnóstico tivesse o seu quê de intimidade e acreditasse que a esfera intima sofresse o estrago de se desnudar sem virtudes que ocultassem o medo da pequena descoberta.
Sem circunstância de prudência oculto em mim o que há de todos os todos que em mim houveram.
Tão pouco Aristóteles ou Freud em sua casa de campo exercitariam as regras para descompor o arcaico organizado desta fantasia.
O que eu sei de mim fui eu que me ensinou e nada há mais pesado que o reflexo do espelho estar atrás da imagem que gostaríamos de ver.
O que eu sei de mim fui eu que me ensinou e natural me sustento e divido quem dou por caminhos escolhidos de afectos clandestinos.
Ocultos presumo que mesma eu escondo a ferragem das portas do abrir e fechar para só entreabrir a beleza da sombra no umbral da janela à hora certa.
O que eu sei de mim fui eu que me ensinou no rancor da cópia que é o outro em nós sem mais contemplações, e se rio e disfarço é que já estou na peça a determinada etapa enquanto os outros ensaiam a voz do ensaio geral à espera do pano.
Como o Fernando filmou o murro certeiro que encheu de sangue o coração de Belarmino.
O que eu sei de mim fui eu que me ensinou a sedução do cruel elevado ao ponto do âmago vivido a viver o facto de facto para saber o outro primeiro que nós e descobri-lo dfepois duma forma clara que o principio do fim é o fim virado ao contrário avesso direito duma roupa já gasta que era do irmão mais velho.
Sem circunstância de prudência oculto em mim o que há de todos os todos que em mim houveram.
Tão pouco Aristóteles ou Freud em sua casa de campo exercitariam as regras para descompor o arcaico organizado desta fantasia.
O que eu sei de mim fui eu que me ensinou e nada há mais pesado que o reflexo do espelho estar atrás da imagem que gostaríamos de ver.
O que eu sei de mim fui eu que me ensinou e natural me sustento e divido quem dou por caminhos escolhidos de afectos clandestinos.
Ocultos presumo que mesma eu escondo a ferragem das portas do abrir e fechar para só entreabrir a beleza da sombra no umbral da janela à hora certa.
O que eu sei de mim fui eu que me ensinou no rancor da cópia que é o outro em nós sem mais contemplações, e se rio e disfarço é que já estou na peça a determinada etapa enquanto os outros ensaiam a voz do ensaio geral à espera do pano.
Como o Fernando filmou o murro certeiro que encheu de sangue o coração de Belarmino.
O que eu sei de mim fui eu que me ensinou a sedução do cruel elevado ao ponto do âmago vivido a viver o facto de facto para saber o outro primeiro que nós e descobri-lo dfepois duma forma clara que o principio do fim é o fim virado ao contrário avesso direito duma roupa já gasta que era do irmão mais velho.
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