sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

canto de amigos

(machado da graça)

Vinha manso o escritor a falar outra vez dos desenhos. Tomei atenção desta vez e ouvi que tinha recolhido do chão do lixo uns desenhos que tinham deitado fora.
Eu acho que são teus dizia envergonhado.
Marcámos o dia visitei a casa, subi as escadas e logo ali, oito ou nove desenhos encaixilhados dos anos sessenta.
No sotão da escrita lá estava o pacote cuidadosamente embalado entre papeis e livros, lá onde os desenhos tinham morado, eles mesmo mais de trinta anos.
Sentei-me devagar e a medo comecei o desembrulho.
Uma a uma cada folha que saía tinha a minha história de vida, quarenta anos passados.
Na altura não queria acreditar, mas era verdade estavam ali, guardadinhos com amor, quase uma vida, à espera que os visse. Era verdade sim, e pela primeira vez as lágrimas desabridas traíram os olhos ao ver que alguém os recolhera e tinha tomado conta como se duma criança se tratasse.
Pela primeira vez senti-me obrigada a explicar um a um os temas escolhidos, eu propria a relembrar-me, o passado a reentrar, a descomplicar as memórias, a trazer à tona estórias apagadas da lembrança.

Era o confronto brutal com o passado doce e acreditado do país.
Da hora em que o sonho torna realidade o impulso de contar, de retratar.

Vinha manso o escritor e trazia consigo toda a minha adolescência, os meus confrontos, também as minhas lutas, os meus olhares.
Vinha tão manso o escritor e trazia nem ele nem eu sabíamos bem o quê e devagar dizia-me vai com calma tens todo o tempo que quiseres.
Ter o tempo nas mãos, poder utilizá-lo a meu prazer, saber que podia estar ali uma vida inteira a ver a rever, até podia morrer ali entre papeis e livros e flashes entrecortados da alma.
Podia.
Porque em áfrica o tempo é nosso. Inteiro.
Não há pressas nem horas. Só o sol melado e quente que nos lambe docemente a pele.

Mas ao mesmo tempo queria fugir, saltar daquele tumulto, desabituada agora de relógios parados.

Um a um assinei os desenhos.
E expliquei tudo o que se passava em redor deles.

O escritor que vinha manso e viu os meus confrontos quis devolver-me tudo.
Seria amoral receber aquela reliquia -guardada quase trinta anos - à espera que eu desse atenção.
Só trouxe o retrato da Teresinha e do Zé Netto a quem vou oferecer.
Fiquei com o registo fotocopiado de todas as obras e pedi ao manso escritor se me emprestava alguns para mostrar na exposição. Lá estiveram.

Só eu e ele sabíamos o desafio dos afectos.
Só eu e ele.
Foi por isto tudo que a minha adolescência ficou embrulhadinha naquele sotão.
Agora sei onde está.
Mansamente.

5 comentários:

yasmin disse...

Que bonito texto. Bjns

Unknown disse...

Muito profundo e lindo o que escreveste Tixala.

Teresa

Unknown disse...

Que linda homenagem ao João. Ele era mesmo assim.

Elsa

Unknown disse...

Muito Bonito!

Unknown disse...

E lá continuam muitos deles, lindíssimos. Sempre que quiseres, a cada é tua para os veres e os desenhos também mas obrigada pelo empréstimo, é sempre bom olhá-los. Beijinhos