quinta-feira, 18 de junho de 2009

canto de amigos

(afonso)

olha Afonso é para dizer que não me esqueci de ti

tu que me ensináste a liberdade
a mais valia das coisas o medir do interior das almas
desde o tempo do café turco na costa do sol às corridas para o hotel onde me davas as cartas e os poemas da glória
desde o tempo da ocapa e dos voos encobertos
desde o tempo das casas das construções
foram anos e anos Afonso de trocas e segredos
de pemba a maputo de moçambique ao algarve de moçambique a válega
tudo pela cultura pelo sonho pelos outros
bem me dizias o mais importante das coisas não é o que elas nos fazem mas o que fazemos delas
bem me dizias, tu mais velho do que eu, bem me ensinavas ensinavas ensinavas
e ficavas feliz por eu ouvir, concordar e discordar, tu que ficavas feliz a contar histórias e me lavaste a ver as casas todas que construiste as boas e as más, porque isso tu sabias,
era preciso fazer más para ter a alegria nas boas como nas coisas na vida
na aprendizagem do tempo na ultrapassagem dos dias

olha Afonso é para dizer que não me esqueci de ti

tu de riso largo com um bilhete de camioneta na mão - trouxe-te a liberdade aproveita estás a tempo, e não deixes nunca de escrever e não deixes nunca de pintar
tu de riso largo os olhitos a brilhar no café de Portimão

olha Afonso é para dizer que não me esqueci de ti

todos dentro da cuba a pisar o vinho, não era para o beber, era outra aprendizagem, era sentir na pele as coisas do campo
aqui vou fazer isto ali vou fazer aquilo, tu não paravas Afonso
apostavas na esperança, na continuidade - um dia esta quinta vai ser o palácio de nós todos, os invernos passam depressa e nós temos o verão cá dentro -
não te esqueças o primeiro bem que temos é o amor o segundo é o tecto
há que saber povoá-lo encher o céu de estrelas ,depois é só viver

olha Afonso é para dizer que não me esqueci de ti

e fiquei muito feliz quando te puseram no regaço da glória
onde ficáste como querias
agarradinho a ela sempre juntos
no grande amor eterno que sempre se tiveram

2 comentários:

Unknown disse...

Consegui chegar aqui,titubeante.Pé ante pé. Agora que F.já cá não está e eu sinto cada vez mais aúltimas palavras que me disse,no intervalo daquela dôr horrível.
Quem sou eu?mas atrevo-me a dizer que encontrei,nestes teus gestos em verso,o mundo que também foi meu.Se eu valer alguma coisa,gostei muito,senti bem o que é amar e aprender,com os amigos mais velhos como eu com F.

Unknown disse...

Pois,eu não tenho geito para isto.Só para dizer que sou filha de F.Rebelo do RCM.E sou viúva de Fernando Pereira da INTER.Amiga da Maria Orlanda,Lourenço Carvalho,João Bernardo e Malangatana.Estive desaparecida em combate.