(afonso)
olha Afonso é para dizer que não me esqueci de ti
tu que me ensináste a liberdade
a mais valia das coisas o medir do interior das almas
desde o tempo do café turco na costa do sol às corridas para o hotel onde me davas as cartas e os poemas da glória
desde o tempo da ocapa e dos voos encobertos
desde o tempo das casas das construções
foram anos e anos Afonso de trocas e segredos
de pemba a maputo de moçambique ao algarve de moçambique a válega
tudo pela cultura pelo sonho pelos outros
bem me dizias o mais importante das coisas não é o que elas nos fazem mas o que fazemos delas
bem me dizias, tu mais velho do que eu, bem me ensinavas ensinavas ensinavas
e ficavas feliz por eu ouvir, concordar e discordar, tu que ficavas feliz a contar histórias e me lavaste a ver as casas todas que construiste as boas e as más, porque isso tu sabias,
era preciso fazer más para ter a alegria nas boas como nas coisas na vida
na aprendizagem do tempo na ultrapassagem dos dias
olha Afonso é para dizer que não me esqueci de ti
tu de riso largo com um bilhete de camioneta na mão - trouxe-te a liberdade aproveita estás a tempo, e não deixes nunca de escrever e não deixes nunca de pintar
tu de riso largo os olhitos a brilhar no café de Portimão
olha Afonso é para dizer que não me esqueci de ti
todos dentro da cuba a pisar o vinho, não era para o beber, era outra aprendizagem, era sentir na pele as coisas do campo
aqui vou fazer isto ali vou fazer aquilo, tu não paravas Afonso
apostavas na esperança, na continuidade - um dia esta quinta vai ser o palácio de nós todos, os invernos passam depressa e nós temos o verão cá dentro -
não te esqueças o primeiro bem que temos é o amor o segundo é o tecto
há que saber povoá-lo encher o céu de estrelas ,depois é só viver
olha Afonso é para dizer que não me esqueci de ti
e fiquei muito feliz quando te puseram no regaço da glória
onde ficáste como querias
agarradinho a ela sempre juntos
no grande amor eterno que sempre se tiveram
Quinta-feira, 18 de Junho de 2009
Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009
canto de amigos
(miguel)
Era verdade sim.
E assim se esvaíu o meu resto de sangue que cansado lutava para amansar a fera.
Dois dias passados e a fera regressa espapaçada em ruinas das duvidas e dores que lhe falam o dia.
Ainda geme terrena, mas falta-lhe a asa para dizer do amor, as incertezas da indiferença.
Lacrimeja na angústia de isolar emoções e fixa suas patas no orgulho irrefletido de amachucar a presa para o resto da vida.
Sinto profundas as picadas da reflexão e exausta aguardo que seja mentira, um sonho passado, mas regresso a casa e nada me espera senão a patada violenta e ensanguentada do animal ferido.
Retiro os espinhos e o maior esforço é não chorar agora que perdi a vontade de acreditar na verdade que vinha anunciando um barco em águas lisas.
Que águas eram essas em que acreditei tal criança de escola, na vontade humana de transformar os dias?
Que águas eram essas que as li limpidas e mancharam de vez os retratos, os gestos, a familia, os objectos e levaram consigo tudo e todos, numa enchurrada de lama?
Que águas eram essas que galgaram paredes e destruiram as casas e os anos, os dias e o pão, repartidos aos poucos?
Que águas eram essas e de poço vinham, que tão intranquilas pararam correntes e ficaram submersas para o resto dos dias?
Regresso à estrada tal Kerouak e tento subverter as mágoas e os prantos duma explosão sem retorno que se instalou à porta de casa.
Perco a familia, o cão, os objectos e duma assentada,
encontro-me vazia de sonho e vontade para continuar a vida em cima dos passos.
Era verdade sim.
E assim se esvaíu o meu resto de sangue que cansado lutava para amansar a fera.
Dois dias passados e a fera regressa espapaçada em ruinas das duvidas e dores que lhe falam o dia.
Ainda geme terrena, mas falta-lhe a asa para dizer do amor, as incertezas da indiferença.
Lacrimeja na angústia de isolar emoções e fixa suas patas no orgulho irrefletido de amachucar a presa para o resto da vida.
Sinto profundas as picadas da reflexão e exausta aguardo que seja mentira, um sonho passado, mas regresso a casa e nada me espera senão a patada violenta e ensanguentada do animal ferido.
Retiro os espinhos e o maior esforço é não chorar agora que perdi a vontade de acreditar na verdade que vinha anunciando um barco em águas lisas.
Que águas eram essas em que acreditei tal criança de escola, na vontade humana de transformar os dias?
Que águas eram essas que as li limpidas e mancharam de vez os retratos, os gestos, a familia, os objectos e levaram consigo tudo e todos, numa enchurrada de lama?
Que águas eram essas que galgaram paredes e destruiram as casas e os anos, os dias e o pão, repartidos aos poucos?
Que águas eram essas e de poço vinham, que tão intranquilas pararam correntes e ficaram submersas para o resto dos dias?
Regresso à estrada tal Kerouak e tento subverter as mágoas e os prantos duma explosão sem retorno que se instalou à porta de casa.
Perco a familia, o cão, os objectos e duma assentada,
encontro-me vazia de sonho e vontade para continuar a vida em cima dos passos.
Domingo, 28 de Dezembro de 2008
canto de amigos
(barbara)
Descubro sozinha o espaço vazio deixado no ar e mergulho na cama atapetadp lençol para sonhar com a nuvem que não dissipa maus estares da guerra dentro do abrigo.
espero aqui que se desate a besta infestada de passados males, mas repousa cobarde aquietada no azul mentindo da festa os dizeres de outrora.
Esquecida repouso sem ousar mais espadas e num abraço a memória retoma meu sono de previsto cansaço para continuar a vida em cima dos passos que caminhos andados tornaram calosos, exaustos e poucos, e poder esquecer para recomeçar outra estrada de rosto erguido sem mágoas ou medos.
Juro sobre a minha alma que arquitectei outros dias para acabar a festa.
No meio do sonho entre promessas profundas mergulhei no mar da revoltada maré.
Mas agora é que era. A besta saía de olhos mansos para anunciar a guerra, e bramia as espadas, as facas e as cordas, vestindo de corça sua roupagem sem nexo.
E tão simplesmente, duma assentada, acabava com o sonho, acabava com a vida.
As lutas cessaram borradas de anil e o azul do céu ficou para sempre ecoando no tecto.
Agora fico à espera de relatos anunciados.
Descubro sozinha o espaço vazio deixado no ar e mergulho na cama atapetadp lençol para sonhar com a nuvem que não dissipa maus estares da guerra dentro do abrigo.
espero aqui que se desate a besta infestada de passados males, mas repousa cobarde aquietada no azul mentindo da festa os dizeres de outrora.
Esquecida repouso sem ousar mais espadas e num abraço a memória retoma meu sono de previsto cansaço para continuar a vida em cima dos passos que caminhos andados tornaram calosos, exaustos e poucos, e poder esquecer para recomeçar outra estrada de rosto erguido sem mágoas ou medos.
Juro sobre a minha alma que arquitectei outros dias para acabar a festa.
No meio do sonho entre promessas profundas mergulhei no mar da revoltada maré.
Mas agora é que era. A besta saía de olhos mansos para anunciar a guerra, e bramia as espadas, as facas e as cordas, vestindo de corça sua roupagem sem nexo.
E tão simplesmente, duma assentada, acabava com o sonho, acabava com a vida.
As lutas cessaram borradas de anil e o azul do céu ficou para sempre ecoando no tecto.
Agora fico à espera de relatos anunciados.
Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008
canto de amigos
(machado da graça)
Vinha manso o escritor a falar outra vez dos desenhos. Tomei atenção desta vez e ouvi que tinha recolhido do chão do lixo uns desenhos que tinham deitado fora.
Eu acho que são teus dizia envergonhado.
Marcámos o dia visitei a casa, subi as escadas e logo ali, oito ou nove desenhos encaixilhados dos anos sessenta.
No sotão da escrita lá estava o pacote cuidadosamente embalado entre papeis e livros, lá onde os desenhos tinham morado, eles mesmo mais de trinta anos.
Sentei-me devagar e a medo comecei o desembrulho.
Uma a uma cada folha que saía tinha a minha história de vida, quarenta anos passados.
Na altura não queria acreditar, mas era verdade estavam ali, guardadinhos com amor, quase uma vida, à espera que os visse. Era verdade sim, e pela primeira vez as lágrimas desabridas traíram os olhos ao ver que alguém os recolhera e tinha tomado conta como se duma criança se tratasse.
Pela primeira vez senti-me obrigada a explicar um a um os temas escolhidos, eu propria a relembrar-me, o passado a reentrar, a descomplicar as memórias, a trazer à tona estórias apagadas da lembrança.
Era o confronto brutal com o passado doce e acreditado do país.
Da hora em que o sonho torna realidade o impulso de contar, de retratar.
Vinha manso o escritor e trazia consigo toda a minha adolescência, os meus confrontos, também as minhas lutas, os meus olhares.
Vinha tão manso o escritor e trazia nem ele nem eu sabíamos bem o quê e devagar dizia-me vai com calma tens todo o tempo que quiseres.
Ter o tempo nas mãos, poder utilizá-lo a meu prazer, saber que podia estar ali uma vida inteira a ver a rever, até podia morrer ali entre papeis e livros e flashes entrecortados da alma.
Podia.
Porque em áfrica o tempo é nosso. Inteiro.
Não há pressas nem horas. Só o sol melado e quente que nos lambe docemente a pele.
Mas ao mesmo tempo queria fugir, saltar daquele tumulto, desabituada agora de relógios parados.
Um a um assinei os desenhos.
E expliquei tudo o que se passava em redor deles.
O escritor que vinha manso e viu os meus confrontos quis devolver-me tudo.
Seria amoral receber aquela reliquia -guardada quase trinta anos - à espera que eu desse atenção.
Só trouxe o retrato da Teresinha e do Zé Netto a quem vou oferecer.
Fiquei com o registo fotocopiado de todas as obras e pedi ao manso escritor se me emprestava alguns para mostrar na exposição. Lá estiveram.
Só eu e ele sabíamos o desafio dos afectos.
Só eu e ele.
Foi por isto tudo que a minha adolescência ficou embrulhadinha naquele sotão.
Agora sei onde está.
Mansamente.
Vinha manso o escritor a falar outra vez dos desenhos. Tomei atenção desta vez e ouvi que tinha recolhido do chão do lixo uns desenhos que tinham deitado fora.
Eu acho que são teus dizia envergonhado.
Marcámos o dia visitei a casa, subi as escadas e logo ali, oito ou nove desenhos encaixilhados dos anos sessenta.
No sotão da escrita lá estava o pacote cuidadosamente embalado entre papeis e livros, lá onde os desenhos tinham morado, eles mesmo mais de trinta anos.
Sentei-me devagar e a medo comecei o desembrulho.
Uma a uma cada folha que saía tinha a minha história de vida, quarenta anos passados.
Na altura não queria acreditar, mas era verdade estavam ali, guardadinhos com amor, quase uma vida, à espera que os visse. Era verdade sim, e pela primeira vez as lágrimas desabridas traíram os olhos ao ver que alguém os recolhera e tinha tomado conta como se duma criança se tratasse.
Pela primeira vez senti-me obrigada a explicar um a um os temas escolhidos, eu propria a relembrar-me, o passado a reentrar, a descomplicar as memórias, a trazer à tona estórias apagadas da lembrança.
Era o confronto brutal com o passado doce e acreditado do país.
Da hora em que o sonho torna realidade o impulso de contar, de retratar.
Vinha manso o escritor e trazia consigo toda a minha adolescência, os meus confrontos, também as minhas lutas, os meus olhares.
Vinha tão manso o escritor e trazia nem ele nem eu sabíamos bem o quê e devagar dizia-me vai com calma tens todo o tempo que quiseres.
Ter o tempo nas mãos, poder utilizá-lo a meu prazer, saber que podia estar ali uma vida inteira a ver a rever, até podia morrer ali entre papeis e livros e flashes entrecortados da alma.
Podia.
Porque em áfrica o tempo é nosso. Inteiro.
Não há pressas nem horas. Só o sol melado e quente que nos lambe docemente a pele.
Mas ao mesmo tempo queria fugir, saltar daquele tumulto, desabituada agora de relógios parados.
Um a um assinei os desenhos.
E expliquei tudo o que se passava em redor deles.
O escritor que vinha manso e viu os meus confrontos quis devolver-me tudo.
Seria amoral receber aquela reliquia -guardada quase trinta anos - à espera que eu desse atenção.
Só trouxe o retrato da Teresinha e do Zé Netto a quem vou oferecer.
Fiquei com o registo fotocopiado de todas as obras e pedi ao manso escritor se me emprestava alguns para mostrar na exposição. Lá estiveram.
Só eu e ele sabíamos o desafio dos afectos.
Só eu e ele.
Foi por isto tudo que a minha adolescência ficou embrulhadinha naquele sotão.
Agora sei onde está.
Mansamente.
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